Reinaldo Azevedo

Mercados apostaram em promessas sabidamente falsas de Flávio e cortes contra vulneráveis. A reeleição de Lula impõe o choque com a realidade

Reinaldo Azevedo

27/10/2026 12:14

Fúria “duzmércáduz” esconde frustração com o fim da agenda oculta de Flávio
Aqueles a que chamo “uzmercáduz” reagiram muito mal à reeleição de Lula. Logo passa. O Goldman Sachs, por exemplo, já enxerga oportunidades — outros virão daqui a pouco —, embora aposte que o presidente pouco fará para mudar a “trajetória fiscal”. Não sei bem o que quer dizer e qual seria o conteúdo de uma eventual inflexão.
Essa turma sempre arruma substantivos abstratos para tratar de gente concreta: os pobres, por exemplo. De qualquer modo, parece ser algo um tanto mais razoável do que anunciar: “Ou muda ou lhe quebramos as pernas”. Em horas assim, quem dissente do grupo de pressão acaba levando vantagem. Basta saber a hora certa de abandonar os parceiros, cedendo à realidade. Por ora, estão todos indignados. Vamos ver.
Eu ainda não entendi — e não entendi mesmo, a menos que alguém me explique, então, qual era a agenda secreta de Flávio — por que o candidato do PL tinha sido eleito como “o nosso (deles) homem”. Em entrevista a Renata Lo Prete, na dita “Sabatina da Globo” — não gosto do nome, mas, para ele, vale, porque estava de calças curtas e, creio, com vontade de fazer xixi —, houve a sua famosa sequência de “nãos” secos e tranquilizadores: não alteraria a política de valorização do salário mínimo; não mexeria com o ganho real dos aposentados; não desvincularia Saúde e Educação dos laços constitucionais que impõem reajustes no Orçamento.
Como observou apropriadamente a entrevistadora, há um “consenso dos economistas” — eu diria ser quase isso, ao menos entre os especialistas não ignorados pela imprensa, incluindo os que o apoiavam — que, sem mexer nessas grandes despesas, não é possível operar o prometido corte de R$ 200 bilhões/ano no gasto público. E lhe cobrou que detalhasse, então, seu plano de ajuste fiscal.
O que se ouviu foi um festival de batatadas que, vá lá, pudessem até ser inexequíveis em razão de dificuldades políticas, mas que fizessem algum sentido econômico e que lidassem, no mínimo, com dinheiro real. Mas quê… O então candidato falou em cortar 10 ministérios; em combater a corrupção; em promover a securitização de imóveis e da dívida — apenas com isso, deu a entender, arrecadaria R$ 400 bilhões por ano. E colocou também na coluna das receitas os recursos dos royalties do petróleo da Margem Equatorial, que começará a jorrar o dito cujo só em 2033…
Àquela altura, a vontade de fazer pipi deve ter atingido o seu ponto alto. Renata não resistiu, porém, à tentação de lembrar que petróleo ainda não há e não haverá tão cedo. Ah, sim: Flávio ainda fez um cálculo enganoso sobre o prejuízo das estatais, quando se consideram todas as contas públicas. Mimoseou o pensamento matemático somando um suposto lucro de R$ 18 bilhões nessa área durante o governo do pai com um alegado prejuízo de R$ 36 bilhões na gestão petista e conseguiu, de uma vez, achar R$ 54 bilhões em caixa. E ele estava tentando ser sagaz, não engraçado.
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No debate da Band, foi ainda mais ousado: propôs um “programa” para suspender por seis meses o pagamento das dívidas de pessoas físicas e por um ano o das pessoas jurídicas. Isso custaria alguns trilhões porque alguém teria, bem, de remunerar “uzmercáduz” enquanto isso, não? Ou se decretaria a quebradeira geral?
E, pasmem!, nem assim o tal “consenso” se quebrou. Enquanto “pesquisas de opinião” indagavam se as ditas “bondades eleitorais” de Lula eram ou não “populistas”; enquanto se faziam contas picaretas sobre os pretensos R$ 300 bilhões que o petista já teria injetado na eleição, ninguém pensou em perguntar a Flávio de onde ele tiraria a grana. Ademais, prometeu desonerar a folha de salários e compensar o empresariado pelo fim da escala 6 X 1. Flávio criaria a cornucópia do dinheiro. Acrescentou: sem privatizações. No debate da Globo, aproveitou para aderir à proposta de Tarifa Zero nos fins de semana, feita por Lula. Se o presidente anunciasse injeção de graça num dos olhos, ele anunciaria imediatamente nos dois.
Afinal, por que os mercados estavam excitados com ele? Qual o motivo de o baixo-ventre dessa patota se irrigar com o sangue em razão dos estímulos de Flávio se nada do que dizia fazia sentido? A resposta só pode ser uma, sem alternativa: é que ele tinha uma pauta oculta que os iniciados que conseguem fazer preço “nuzmercáduz” decerto conheciam.
Ora, dado o conjunto do que apresentava publicamente, não se podia reconhecer onde o corte seria feito; as receitas eram todas fantasiosas, e ele se comprometia, de quebra, a baixar a arrecadação. Como essa gente pode ser estranha, mas não gosta de rasgar dinheiro, pode-se sustentar sem medo de errar que estava com Flávio unicamente porque tinha a certeza de que ele faria contra os pobres tudo o que jurava não fazer. Detalhe: ele também manteria a política de valorização dos servidores.
Da noite para o dia, o candidato do PL passou a encarnar o combo das políticas sociais de Lula. O desagrado se deve ao fato de que perderam o seu mentiroso de estimação. Seria esclarecedor nos contarem quais eram os compromissos não declarados. E, suponho, eles não se resumiam ao “ajuste fiscal”, não é?
“Sabe o que é, Reinaldo? Os mercados reagiram mal porque Lula é hostil aos bancos”. O resultado do setor me diz que não. “Porque é hostil ao agro”. O resultado do setor me diz que não. “Porque é hostil à indústria”. O resultado do setor me diz que não.
Então qual é o ponto?
Não posso acreditar que tanto apreço se deva aos olhos azuis de Flávio… Além disso, ele se preparava para instaurar uma crise de longa duração com o Supremo. Acho que esses tais “uzmercáduz” nem se deram ao trabalho de verificar a data de indicação dos futuros ministros da Corte. A tara, dele e de setores da imprensa, pelo impeachment de Alexandre de Moraes teria de ser submetida ao crivo da legalidade do tribunal tal como hoje composto. E a primeira substituição, a de Luiz Fux, somente se dará em 28 de abril de 2028. De resto, ainda que reeleito não tivesse sido, Lula pode indicar, com o Senado que aí está, o nome para a vaga de Luís Roberto Barroso, que segue aberta.
Por que mesmo “uzmercáduz” despirocaram com a vitória de Lula? Porque apostavam na agenda clandestina de Flávio, o que, em essência, frauda a democracia. Os preços que aí estão são aqueles feitos por fraudadores da ordem democrática, que queriam a eleição de um impostor. Perderam. Façam como o Goldman Sachs: comecem a procurar alternativas de negócio dentro da lei.


