A Justiça de São Paulo negou um pedido do advogado Willer Tomaz para recuperar R$ 163 milhões que afirmou, conforme revelado por coluna de Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, ter perdido em apostas online na plataforma Blaze. Na ação, ele alegou vício em jogos de azar e falhas no funcionamento do site.Responsável pela análise do caso, o juiz Guilherme Madeira Dezem, da 44ª Vara Cível de São Paulo, destacou que o próprio advogado teria solicitado condições especiais para realizar apostas de alto valor, incluindo a criação de mesas exclusivas de blackjack.Segundo o magistrado, Tomaz também pediu aumentos sucessivos dos limites de operação, até chegar à possibilidade de apostar R$ 500 mil por jogada. Na decisão, Dezem afirmou que o autor “solicitou pessoalmente e obteve a criação de mesas privativas e exclusivas de apostas em valores exorbitantes”.O juiz também considerou que o sofrimento provocado pela perda de grandes quantias em jogos de azar decorre dos riscos assumidos pelo próprio apostador.“O dissabor, a angústia e o abalo emocional decorrentes da perda de vultosos valores em jogos de azar eletrônicos constituem consequências diretas e imediatas do risco intrínseco e voluntariamente assumido pelo apostador”, escreveu.Apesar de negar a devolução do dinheiro, o magistrado determinou que Tomaz não seja mais importunado pela plataforma.O advogado é apontado como amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. Em janeiro de 2025, os dois viajaram dos Estados Unidos ao Brasil em uma aeronave administrada por uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Leia também Neila GuimarãesDeputado aciona PGR contra obras em ilha ligada a Willer Tomaz em Angra Demétrio VecchioliWiller Tomaz recebeu R$ 67 milhões de empresa que lucra com bets Demétrio VecchioliWiller Tomaz e Blaze combinavam formas de driblar regulamentação de apostas Demétrio VecchioliTJSP rejeita pedido de Willer Tomaz para bloquear R$ 145 milhões da Blaze Entenda o casoWiller Tomaz apostou quase R$ 5 bilhões no ano de 2025 em jogos on-line. Somente na Blaze, ele movimentou R$ 10 bilhões entre ganhos e perdas. Em um ano, o advogado perdeu R$ 163 milhões para a casa de apostas, valor equivalente à metade do lucro que a Blaze registrou ter enviado para um paraíso fiscal, a Ilha de Man. Boa parte das transações acontecia em desacordo com a regulamentação federal, por um combinado entre ele e a Blaze.Em relatório da Polícia Federal que embasou operação do último dia 4 de agosto, Willer foi apontado como “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados pela Máfia do INSS.O pedido de reparação negado pela Justiça nesta sexta foi feito três dias antes da operação da qual Willer foi alvo.No processo, Willer mostra que a relação continuada o levou a uma das escalas mais altas do programa de fidelidade da Blaze: o nível 171.Apostas durante viagem com FlávioWiller apostava durante períodos relativamente curtos do dia, mas sempre em valores fora da realidade de um brasileiro médio. No dia 29 de julho, por exemplo, jogou das 2h às 4h. Nesse intervalo, fez 11 depósitos de R$ 100 mil cada e perdeu tudo após centenas de giros de roleta com apostas sempre acima de R$ 50 mil.A rotina seguiu em 2026. Na manhã de 19 de janeiro, depositou R$ 500 mil na Blaze e, depois de meia hora jogando on-line, sacou R$ 1 milhão fracionado em 10 vezes. À tarde, ganhou um bônus de fidelidade de R$ 325 mil (o que é proibido pela legislação), que torrou em cinco minutos. À noite, o lucro da manhã virou água, com perdas de R$ 725 mil.Naquele dia, Willer voou de volta dos EUA ao Brasil, dando carona ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em seu jatinho – a relação próxima entre os dois virou assunto nacional, com notícias de que Flávio ficou hospedado em um apartamento de Willer em São Paulo, fez a festa de aniversário da filha em uma casa do advogado em Angra dos Reis (RJ) e que os dois viajaram juntos ao exterior cinco vezes em 2025.Atendimento VIPDepois de comprovar renda enviando extratos de suas contas bancárias, que mostravam repasses milionários de seus escritórios de advocacia e de uma emissora de televisão maranhense, em 2023 (logo, antes da regulamentação), Willer passou a receber atendimento VIP na Blaze. Ele tinha um funcionário holandês da bet dedicado a atendê-lo pelo WhatsApp.Conversas anexadas aos autos, na tentativa de provar que a casa de apostas foi imprudente, mostram o advogado irritado por precisar fazer reconhecimento facial cada vez que desejava sacar R$ 100 mil.“Todos os saques estão pedindo reconhecimento facial. Isso dificulta muito, amigo”, reclamou em janeiro de 2025. Informado de que se tratava de imposição da nova regulação federal, protestou: “Meu Deus. Então aumenta o limite para saque, para R$ 500 mil por saque. Senão irá inviabilizar o tamanho do meu jogo. Esse reconhecimento facial está demorando até um minuto”.O concierge logo voltou com uma solução proibida pela regulamentação que havia acabado de ser implementada: “Você não vai mais ser amolado com o reconhecimento facial, então você pode fazer quantos pedidos [de saque] quiser”. A medida é proibida pela legislação federal.Willer usava como argumento para seus pedidos ser fonte constante de receitas para a bet: “Duvido que exista alguém no mundo que tenha te dado mais lucro do que eu. Acho que nem mesmo meu amigo Njr”, escreveu ao concierge, em provável referência a Neymar Jr, garoto propaganda da Blaze.R$ 10 bilhões em um anoQuando o ritmo da jogatina diminuiu a partir da primeira semana de março, o concierge dedicado a atendê-lo notou e quis saber por quê. Willer explicou que estava incomodado com a demora da Blaze em liberar seus saques e que havia se assustado com o relatório sobre a atividade da conta dele.“Os números são extremamente altos, tanto em termos de movimentação quanto de perdas. Considerando o nível de atividade da minha conta, eu esperava, na verdade, algum tipo de verificação ou sugestão relacionada ao jogo responsável por parte da plataforma”, reclamou, em meados de março deste ano.O relatório mostra que Willer ganhou R$ 4,800 bilhões em jogos de cassino em 2025 e perdeu R$ 4,963 bilhões, o que dá um resultado líquido de R$ 163 milhões negativos. Em apostas esportivas, teve lucro de R$ 39 mil.Quatro dias depois de receber o relatório mostrando que perdia muito mais do que ganhava – os depósitos dele em 2025 somaram R$ 300 milhões e, os saques, R$ 137 milhões –, Willer já tinha um processo pronto contra a Blaze.Antes de protocolá-lo, procurou a empresa para lembrar do risco de exposição pública da querela e oferecer um acordo pelo qual a Blaze devolveria 70% de tudo o que perdeu.

TJSP nega a Willer Tomaz recuperação de R$ 163 milhões perdidos em bets
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