A Represa de Abberton é um reservatório de água doce com armazenamento por bombeamento no leste da Inglaterra, próximo à costa de Essex, com uma área de 700 hectares. A maior parte de sua água é bombeada do Rio Stour. A represa é o maior corpo de água doce de Essex. Construída entre 1935 e 1939, a Represa de Abberton é propriedade da Essex and Suffolk Water e gerida pela mesma, parte do Northumbrian Water Group, fica a 6 km a sudoeste de Colchester, perto da vila de Layer de la Haye. Durante a Segunda Guerra Mundial, o reservatório foi minado para impedir a invasão de hidroaviões e foi utilizado pelo Esquadrão N.o 617 ("The Dam Busters") da RAF para ensaios dos bombardeios das represas alemãs no Ruhr. Um projeto para aumentar a capacidade da Represa de Abberton para 41 mil megalitros por meio da elevação da altura de suas margens foi concluído em 2013, juntamente com uma nova ligação para transferir água do Rio Ouse, em Norfolk, para o Stour. O reservatório é importante pela presença de corvos-marinhos em período de reprodução, anseriformes em período de invernada e ecdise e aves migratórias. Trata-se de uma zona úmida de importância internacional, designada como Sítio Ramsar, Sítio de Especial Interesse Científico e Zona de Proteção Especial, listada na publicação A Nature Conservation Review. Uma pequena parte do local é administrada pela Essex Wildlife Trust.

História Essex é um dos condados mais secos do Reino Unido, situado na região Leste da Inglaterra, a parte mais seca da Grã-Bretanha. O primeiro grande projeto para atender às necessidades hídricas locais foi a criação da South Essex Waterworks Company em 1861, que extraía água do aquífero de giz subjacente por meio de poços, abastecendo uma área a nordeste de Londres, de East Ham [en] a Grays e Brentwood. Apesar da abertura de novos poços, no início da Primeira Guerra Mundial a procura já superava a oferta e a necessidade de encontrar novas fontes acabou por levar à criação de um novo reservatório. A Lei de Abastecimento de Água do Sul de Essex de 1928 (18 & 19 Geo. 5. c. lxxix) conferiu à empresa de águas autoridade para planejar e supervisionar a construção de um novo reservatório para abastecer a região, e a legislação de 1935 aprovou a infraestrutura necessária em termos de tubulações para o Stour, estações de bombeamento e uma central de tratamento de água. O reservatório foi construído entre 1935 e 1939 num terreno que era terra agrícola com alguns bosques pequenos, mediante o represamento do riacho Layer, embora a maior parte da sua água seja bombeada do Rio Stour (Suffolk) [en], 14 km a nordeste do reservatório. A parede da barragem, com 690 m, foi construída com a argila de Londres [en] subjacente para formar um núcleo impermeável de argila compactada e camadas de terra e cascalho foram empilhadas em ambos os lados do núcleo de argila para aumentar a resistência da barragem. Os edifícios e a vegetação existentes dentro dos limites da bacia do reservatório foram removidos e a camada superficial do solo foi retirada e utilizada para modelar as margens do reservatório. Uma plataforma de concreto e uma estrada cobriram 13,7 quilômetros do perímetro de 17,7 quilômetros . Duas estradas existentes foram mantidas, cruzando a extremidade oeste do reservatório por meio de pontes concluídas em maio de 1939. A represa tinha capacidade original para 25 mil megalitros de água.

Segunda Guerra Mundial

A Represa de Abberton foi enchida pela primeira vez pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, e o Ministério da Defesa receava que o local pudesse ser utilizado por hidroaviões alemães como parte de uma possível invasão. Para impedir isso, 312 minas navais, ancoradas por cabos de aço, foram dispostas em forma de grade no reservatório. Cabos de aço foram estendidos pela parte mais próxima da estação de bombeamento, uma vez que a explosão de minas poderia ter danificado a construção. Algumas foram detonadas acidentalmente pelo gelo, mas a maioria foi detonada após a guerra por soldados que disparavam das margens. Um bombardeiro alemão Heinkel, que regressava de um ataque ao aeródromo de Hornchurch [en], foi abatido sobre Abberton em 24 de agosto de 1940. Um dos tripulantes ejetou-se do avião em chamas e foi capturado, o outro morreu afogado. O reservatório foi utilizado pelo Esquadrão n.o 617 ("The Dam Busters") da RAF para ensaios de ataques contra barragens alemãs no Ruhr durante a Segunda Guerra Mundial (Operação Chastise), com o intuito de simular a Barragem de Edersee na Alemanha. Bombardeiros Lancaster equipados com bombas ricocheteadoras especiais, concebidas por Barnes Wallis, foram utilizados nesses ensaios e a polícia militar fechou a ponte enquanto os voos de treino ocorriam. O último voo de teste em Abberton foi um ensaio geral do ataque ao Ruhr, realizado na noite de 14 de maio de 1943. O ataque real às barragens na Alemanha ocorreu duas noites depois, em 16 de maio de 1943. A barragem de Edersee foi atacada e rompida após a barragem de Möhne ter sido destruída com sucesso.

Ampliação Os atuais proprietários do reservatório, a Essex and Suffolk Water, parte do Northumbrian Water Group, reconheceram em 2007 que a sua capacidade era insuficiente para satisfazer a crescente procura local e lançaram um projeto de 140 milhões de libras para aumentar a capacidade para 41 mil megalitros por meio da elevação das suas margens. O projeto foi concluído em 2013 e incluiu a substituição da ligação existente entre o Stour e Abberton por novas tubulações de maior capacidade, seguindo um percurso diferente e captando água em Wormingford em vez de Stratford St. Mary. A outra parte principal do projeto consistia em viabilizar a transferência de água do Ouse [en], a 141 km de distância em Norfolk, para o reservatório por meio do Stour. As tubulações existentes e infraestruturas relacionadas, como estações de bombeamento, transportavam água do Ouse em Denver até Kirtling Green. A partir daí, foi construído um novo túnel de 15,5 km até Wixoe, onde as tubulações existentes completavam a transferência para o Stour. Atualmente, o reservatório tem uma área máxima de 535 hectares e possui três seções separadas pelas pontes de Layer Breton e Layer de la Haye. A seção principal, a maior e mais profunda, situada a leste, tinha originalmente 410 hectares e foi ampliada para os atuais 535 hectares em 2013. A seção central abrange 49 hectares e a seção ocidental tem 16 hectares. A profundidade máxima atual é de cerca de 17 m, 3,2 m a mais do que antes da ampliação. Em anos chuvosos, Abberton e o outro grande reservatório de Essex, em Hanningfield, podem atender as necessidades das 750 mil pessoas que abrangem em Essex e no nordeste de Londres, recorrendo apenas à água do Stour e de outras fontes locais, mas em anos de pluviosidade média, 7% das entradas envolvem transferências do Ouse, valor que sobe para 35% em períodos de seca.

Ecologia

A Represa de Abberton, o maior corpo de água doce de Essex, fica a 6 km a sudoeste de Colchester, perto da vila de Layer de la Haye e a menos de 8 km da costa. As seções ocidental e central da Represa de Abberton têm margens naturais com caniços e salgueiros próximos da água, que se se transformam gradualmente em pastagens úmidas e campos cultivados. A parte principal tinha, originalmente, bordas de concreto, mas 12 km dessa área e da estrada perimetral foram demolidos durante a ampliação entre 2010 e 2013. A maior parte da margem foi reformulada para torná-la mais atraente para aves aquáticas e, juntamente com 200 hectares de terras adjacentes, é agora administrada pela Essex and Suffolk Water e pelo Essex Wildlife Trust para aumentar a biodiversidade. O novo projeto criou lagoas ao redor das margens do reservatório e permitiu a formação de pântanos a oeste da ponte sobre a Layer de la Haye. Uma passagem subterrânea sob a ponte foi bloqueada, permitindo que o nível da água nas seções ocidentais fosse controlado independentemente do corpo principal de água.

Aves Abberton foi um local de repouso invernal para corvos-marinhos desde a década de 1950 e tornou-se a primeira colônia de nidificação em árvores da Inglaterra quando oito casais se reproduziram ali em 1981. Em 1993, havia 584 casais, embora o número tenha diminuído desde então para cerca de 180 casais. As garças-pequenas-europeias nidificaram pela primeira vez em 2014, chegando a 31 casais em 2019 e um casal de garças-vaqueiras se reproduziu em 2020. A área abriga cerca de 20 casais de rouxinóis-bravos, além de outros rouxinóis. Espécies típicas de áreas agrícolas, como o trigueirão, a escrevedeira-amarela e a coruja-das-torres, também se reproduzem nas áreas protegidas. Até oito casais de borrelhos-pequenos-de-coleira se reproduzem nas margens remodeladas do reservatório. A Represa de Abberton é um local de grande importância para a invernada de anseriformes abriga o maior número de indivíduos entre todos os corpos d'água continentais do Reino Unido, com uma população de cerca de 35 mil aves, que pode chegar a bem mais de 40 mil durante invernos rigorosos. É de importância internacional para a invernada de frisadas, patos-trombeteiros e piadeiras, e de importância nacional para cisnes-brancos, marrequinhas, zarrões-comuns, zarrões-negrinhas, olhos-dourados [en], galeirões e mergulhões-de-crista. Muitos patos realizam também a ecdise durante sua temporada no reservatório. Há números significativos de aves limícolas no inverno, incluindo maçaricos, combatentes, abibes e tarambolas-douradas-europeias. No inverno, os abetouros são encontrados regularmente na extremidade oeste do reservatório e tartaranhões-azulados, esmerilhões, falcões-peregrinos e tartaranhões-ruivos-dos-pauis caçam sobre os prados adjacentes, a última espécie já passou o verão na região algumas vezes. A proximidade da costa faz com que Abberton possa abrigar espécies mais raras como mergansos-pequenos e patos-de-cauda-afilada, assim como raridades como um pato-de-asa-azul (1996), o primeiro zarro-grande [en] da Grã-Bretanha (1997-2001) e um zarro-americano (2004-2005). Entre os esternídeos raros encontram-se a gaivina-de-bico-preto, que nidificou em 1949 e 1950, o garajau-grande, a gaivina-de-faces-brancas e a gaivina-de-asa-branca, estando cinco desta última espécie presentes ao mesmo tempo em maio de 2019. Outras raridades mais recentes incluem a sombria (2019), a gaivota-de-bonaparte (2017, 2019), a gaivota-de-franklin (2016) e chasco-do-deserto [en] (2012). Ao longo dos anos, registaram-se múltiplas ocorrências de falcões-de-pés-vermelhos e de andorinhas-dáurica. Um programa de anilhagem de aves opera em Abberton há mais de 70 anos, tendo sido anilhadas 90 mil aves nesse período, incluindo 40 mil marrequinhas. As recuperações de aves anilhadas estabeleceram recordes nacionais de longevidade para 10 espécies, incluindo a piadeira (34 anos), o zarro-comum (22 anos) e a frisada (21 anos).

Outros animais Abberton abriga lontras, roedores e lebres-comuns, bem como oito espécies de morcegos; outros vertebrados incluem o lagarto-vivíparo [en], a cobra-de-água-de-colar e o tritão-de-crista. Entre os insetos presentes encontram-se dois gorgulhos raros, o Rhynchites auratus [en], que se alimenta do abrunheiro-bravo, e um que se alimenta de fungos, o Anthribus fasciatus. Os lagostins-sinal americanos invasores são um problema, pois são maiores e reproduzem-se mais prolificamente do que o lagostim-de-patas-brancas nativo, chegando a substituir o mesmo. Também escavam as margens de rios, o que em Abberton pode reduzir a área disponível para vegetação aquática e aumentar a quantidade de sedimentos que entram na represa provenientes do riacho Layer.

Proteção A Represa de Abberton foi designada Zona de Proteção Especial em 5 de dezembro de 1991, devido às suas populações migratórias de tarambolas-douradas-europeias, frisadas, patos-trombeteiros e marrequinhas, e pela sua população nidificante de corvos-marinhos. Existem também números significativos de maçaricos-de-bico-direito, abibes, galeirões, olhos-dourados, zarrões-negrinhas, zarrões-comuns, marrecas-arrebio, piadeiras e mergulhões-de-crista. O local é uma zona úmida de importância internacional, designada sítio Ramsar em 1981, e tornou-se um Sítio de Especial Interesse Científico em 1988, três anos após a Represa de Hanningfield ter recebido o mesmo estatuto. Uma pequena parte do local é gerida como reserva natural pelo Essex Wildlife Trust.

Acesso

O Essex Wildlife Trust dispõe de um parque de estacionamento e de uma reserva natural, o Parque de Descoberta da Natureza da Represa de Abberton, na extremidade norte da ponte de Layer de la Haye. Há um centro de visitantes com loja, café, sanitários e área de lazer, bem como três mirantes para observação de aves, dois voltados para sul e para leste sobre a seção principal e um em zona arborizada. O centro de visitantes e a reserva estão abertos todos os dias das 10h às 17h. As seções ocidental e central podem ser observadas a partir das pontes de Layer Breton e Layer de la Haye, tendo esta última também vista para a seção principal. Não há acesso público à seção ocidental, mas um estacionamento na extremidade sul da ponte Layer de la Haye dá acesso a um mirante e a áreas de lama sem vegetação (ideais para aves limícolas) na seção principal. Partes do restante da seção principal podem ser vistas a partir de trilhas públicas e da Igreja de St Andrews, na vila de Abberton.

Referências

Bibliografia

«Abberton Reservoir expansion project – the story so far» (PDF) (em inglês). Essex and Suffolk Water. Consultado em 28 de agosto de 2012. Cópia arquivada (PDF) em 5 de março de 2016