🐅 Um predador que não existia mais

Durante sete décadas, nenhuma pegada de tigre foi registrada em solo cazaque. Esse silêncio acabou de forma abrupta. ⬇️

Depois de mais de setenta anos sem nenhum felino livre em seu território, o Cazaquistão viveu um marco histórico no fim de julho. Uma fêmea de tigre-do-amur deixou a jaula de transporte e saltou direto para dentro da Reserva Natural Estadual Ile-Balkhash, no sudeste do país. O momento marca o início prático de um projeto que muitos consideravam improvável. Ele devolve ao Cazaquistão um predador de topo que havia sumido desde o fim dos anos 1940.

Por que o tigre desapareceu do Cazaquistão?

O tigre-de-turã, também chamado tigre-cáspio, sumiu do país em meados do século 20. O último registro confiável do animal solto em terras cazaques data de 1948.

Vários fatores se somaram para apagar a espécie do mapa da região. Entre as causas mais citadas pelos pesquisadores estão:

- Caça descontrolada ao longo de décadas

- Destruição das florestas tugai, o habitat ribeirinho do felino

- Expansão da agricultura sobre as margens dos rios Ili e Syr Dária

- Queda das populações de presas naturais, como veados e javalis

Reserva cazaque recebe tigre selvagem após longa restauração - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Como funciona o projeto de reintrodução?

O plano começou a ganhar forma em 2010, quando o governo cazaque anunciou a intenção de trazer o predador de volta. Sete anos depois, o país e a organização WWF assinaram um acordo para desenhar o programa. Em 2018 nasceu a reserva Ile-Balkhash, no delta do rio Ili, como base da iniciativa.

Antes de qualquer felino pisar na reserva, era preciso reconstruir um ecossistema inteiro capaz de sustentar um predador de topo. Os números por trás dessa preparação de mais de uma década ajudam a entender o tamanho do esforço:

Uma década preparando o terreno

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Base de presas: 205 veados-de-bukhara foram reintroduzidos entre 2018 e 2024 para alimentar os futuros tigres.

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Mais presas: mais de 100 kulans, o asno selvagem asiático, também foram realocados no mesmo período.

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Área protegida: a reserva cobre cerca de 450 mil hectares de floresta ribeirinha e estepe às margens do lago Balkhash.

Fonte: Ministério da Ecologia e Recursos Naturais do Cazaquistão

Quem é Umit, a primeira tigre solta?

Umit é uma fêmea adulta escolhida por pertencer à subespécie considerada parente viva mais próxima do extinto tigre-de-turã. Estudos genéticos mostram que o DNA mitocondrial das duas populações difere em apenas um nucleotídeo.

Ela chegou da região russa de Khabarovsk em maio de 2026. Veio ao lado de outros três tigres doados pela Rússia: o macho adulto Amur e os filhotes Turan e Ussuri.

Antes da soltura, em 31 de julho, especialistas avaliaram sua saúde, seu comportamento e sua capacidade de caçar sozinha. O resultado foi positivo. Nos primeiros dez dias em liberdade, Umit já havia abatido um lobo e, depois, um javali, provando que consegue se alimentar sem ajuda humana. Um colar via satélite acompanha cada um de seus passos, vinte e quatro horas por dia.

O que a reserva precisou preparar antes da soltura?

A reserva teve que garantir comida, espaço e segurança suficientes para o novo predador. Um tigre adulto precisa caçar entre 50 e 70 animais de grande porte por ano para sobreviver. O dado é do Comitê Florestal e de Vida Selvagem do Cazaquistão.

Esse cálculo orientou cada etapa da preparação da reserva. Entre as principais ações tomadas pelas equipes locais estão:

- Reintrodução de veados e kulans como base alimentar do predador

- Recuperação das matas de várzea ao longo do rio Ili

- Construção de cercados de adaptação para os animais recém-chegados

- Reforço da fiscalização contra a caça ilegal dentro da reserva

O trabalho já rendeu resultados que ultrapassam as fronteiras do país. Quem acompanhou de perto a soltura e o histórico do projeto foi o Astana Times.

O que vem depois da soltura de Umit?

Umit segue sob monitoramento constante, enquanto o tigre Amur ainda passa por testes comportamentais antes de sua própria soltura. Os filhotes Turan e Ussuri só devem ganhar liberdade quando completarem dezoito meses de vida. Equipes cazaques e a WWF continuam acompanhando cada etapa juntas. O sucesso do projeto só será medido daqui a alguns anos. Será preciso saber se essa população consegue caçar, se reproduzir e se firmar de vez no Cazaquistão.

Se esse tipo de história de conservação te interessa, vale acompanhar de perto os próximos passos desse projeto nos próximos meses.