O preço de um relógio de luxo na boutique pode ser diferente do valor anunciado na internet e daquele negociado entre lojistas. Para Renan Bastos, fundador e CEO da RC Crown, entender o que cada número representa é o primeiro passo para avaliar uma compra ou uma venda no mercado secundário.A distinção é importante em um setor de cifras bilionárias. Um levantamento da plataforma EveryWatch apontou US$ 16,73 bilhões em vendas mensuráveis no mercado secundário de relógios em 2025. Para o consumidor, porém, o desafio é mais específico: descobrir quais números realmente servem de referência para a peça que deseja negociar.É para esclarecer essa diferença que Renan Bastos detalha quatro referências de preço utilizadas no setor: retail price, asking price, wholesale price e transaction price.“Esses números não representam exatamente a mesma coisa. O erro começa quando alguém compara preços de naturezas diferentes como se todos fossem equivalentes”, aponta, em entrevista ao Feed TV.++ Mercado de relógios de luxo caminha para US$ 84 bilhões, mas nem toda peça garante valorizaçãoAs quatro referências de preçoA primeira é o retail price, o preço oficial de varejo estabelecido pela fabricante para determinado mercado. Ele funciona como referência de boutique, mas não determina o valor de revenda nem significa que qualquer consumidor conseguirá encontrar a peça disponível naquele preço.Já o asking price é o valor solicitado pelo vendedor em um anúncio ou uma oferta. Pode estar acima ou abaixo do preço oficial da marca e não comprova que uma negociação tenha acontecido naquele patamar.“Um relógio pode estar anunciado por determinado valor sem que exista alguém disposto a pagar exatamente aquele número. O asking mostra quanto o vendedor está pedindo naquele momento”, afirma Renan.O wholesale price corresponde ao preço nas negociações entre lojistas e outros profissionais do setor. Não se trata de uma tabela única. São valores negociados considerando as condições da peça, os custos da operação, a margem para revenda, o capital comprometido e a liquidez, ou seja, a facilidade de encontrar outro comprador.“O wholesale não é simplesmente um desconto. É um preço de negociação entre profissionais que precisam considerar o que acontecerá depois daquela compra”, explica o empresário.Por fim, o transaction price é o valor efetivamente pago em uma venda concluída. Ele pode existir tanto em uma negociação entre profissionais quanto em uma compra feita pelo consumidor final.As quatro referências, portanto, não são categorias isoladas. Uma operação entre lojistas pode começar com um preço pedido e terminar com outro valor de fechamento. “Uma venda concluída mostra o preço daquela operação. Para entender o mercado, precisamos comparar negócios semelhantes e observar em quais condições aconteceram”, ressalta Bastos.Quando o preço da internet não está disponível para compraPara mostrar como essa confusão aparece na prática, Renan utiliza um exemplo ilustrativo baseado em situações que relata acompanhar no mercado: um cliente pesquisa um relógio e encontra anúncios por US$ 140 mil, US$ 150 mil e US$ 160 mil.À primeira vista, o menor preço pode parecer a melhor referência. Antes de comparar os números, porém, é preciso confirmar o que está sendo oferecido e se a peça realmente está disponível.“Imagine que um vendedor anuncie um relógio por US$ 150 mil porque acredita que consegue comprá-lo de outro profissional por menos e atender o cliente naquele valor. Isso não significa, necessariamente, que ele já tenha a peça em estoque”, explica.Segundo Bastos, o problema aparece quando o anúncio permanece publicado, mas o custo de aquisição ou a disponibilidade muda. O comprador entra em contato disposto a fechar por US$ 150 mil, enquanto o vendedor já não consegue obter o relógio em condições que permitam cumprir aquela oferta.O empresário relata que anúncios também podem ser utilizados para captar interessados antes de o vendedor localizar uma unidade. O cliente chega pelo preço publicado, descobre que a peça não está disponível e recebe uma proposta por outro exemplar, com valor diferente: “Trabalhar sob encomenda não é o problema. O importante é deixar claro o que está em estoque, o que ainda precisa ser localizado e qual preço pode ser confirmado. Encontrar um preço não é confirmar que existe um relógio disponível para compra naquele valor.”Além da disponibilidade, a comparação precisa considerar referência, ano, conservação, acessórios e documentação. Sem esses cuidados, o consumidor pode colocar lado a lado peças ou condições comerciais que não são equivalentes.O que os dados acrescentam à avaliaçãoNa RC Crown, segundo Bastos, sistemas internos organizam ofertas entre profissionais e permitem acompanhar referências específicas, inclusive em janelas recentes, como os últimos 14 dias. Essas informações são analisadas em conjunto com a experiência das negociações realizadas pela empresa. “O cliente normalmente vê o que está anunciado ao público. Nós também acompanhamos o que está sendo oferecido entre profissionais, por quanto e em que momento. Isso ajuda a entender se aquele anúncio encontrado na internet ainda faz sentido diante das condições atuais”, afirma.O acompanhamento, entretanto, exige distinguir ofertas monitoradas de vendas efetivamente confirmadas. A retirada de um anúncio, por exemplo, não comprova sozinha que a peça foi vendida nem revela o valor de fechamento.“Nosso trabalho é organizar essas informações, confirmar a disponibilidade e comparar peças equivalentes. Não basta pegar o menor número encontrado e chamar aquilo de preço de mercado.”Bastos recomenda o mesmo cuidado com respostas produzidas por ferramentas de inteligência artificial. “Se uma ferramenta consulta um anúncio desatualizado, pode reproduzir essa distorção. A questão não é apenas quem responde, mas quais dados sustentam a resposta e se aquelas condições ainda existem.”Confiança e liquidez também entram na contaPara o empresário, avaliar uma compra também exige olhar além da atenção que determinado modelo recebe no momento.“Um relógio pode ganhar exposição porque apareceu no pulso de alguém ou nas redes sociais. Mas atenção não é a mesma coisa que demanda duradoura. Na hora de vender, a pergunta será: quem quer comprar essa peça e por quanto?”Essa perspectiva influencia as decisões de profissionais que compram para estoque. Segundo Bastos, a dificuldade de encontrar um próximo comprador pode levar o lojista a recusar a peça ou exigir uma margem maior para assumir o risco.Mesmo modelos procurados podem gerar perda financeira, especialmente quando adquiridos por um preço elevado. Facilidade de revenda não significa recuperação garantida do valor pago.Por isso, o empresário defende que a escolha do vendedor considere mais do que o menor anúncio: “Um profissional de confiança precisa explicar as condições da peça, a realidade da revenda e também saber dizer quando um preço está esticado. Uma relação de longo prazo depende de transparência, não apenas de fechar a primeira venda.”Compreender as diferentes referências de preço, portanto, ajuda o consumidor a fazer comparações mais conscientes, sem transformar uma possível valorização em promessa.“Comprar bem começa por entender o que você está comprando e qual preço está sendo usado como referência. Uma eventual valorização deve ser uma possibilidade, e não a justificativa obrigatória da compra”, conclui.
















