A jiboinha-da-serra (nome cientifico: Tropidophis preciosus) é uma espécie de serpente da família dos tropidofiídeos (Tropidophiidae), endêmica de Minas Gerais, no Brasil. Descrita em 2012 a partir de exemplares provenientes da porção meridional da Serra do Espinhaço, integra o pequeno grupo de espécies continentais do gênero Tropidophis, cuja diversidade está concentrada principalmente nas Índias Ocidentais. Trata-se de uma serpente de pequeno porte, com menos de 50 centímetros de comprimento total, corpo robusto e lateralmente comprimido, cauda curta e preênsil e padrão de coloração formado por numerosas manchas escuras distribuídas em séries longitudinais sobre fundo marrom, castanho ou creme. A espécie distingue-se das demais formas brasileiras do gênero pelo elevado número de escamas ventrais, pelas características da escutelação e por um conjunto particular de caracteres cromáticos. Estudos posteriores à descrição original revelaram a existência de dimorfismo sexual nas contagens de escamas ventrais e subcaudais, além de ampliarem o conhecimento sobre sua variação morfológica e distribuição geográfica. A espécie é conhecida exclusivamente de áreas montanhosas situadas acima de mil metros de altitude na porção meridional da Serra do Espinhaço e no Quadrilátero Ferrífero, onde ocorre em ambientes de campo rupestre, frequentemente em transição com floresta estacional semidecidual. Os registros confirmados incluem as regiões de Diamantina, Ouro Preto, Mariana, Caeté e Santo Antônio do Itambé. Diferentemente da maioria de seus congêneres, geralmente associados a formações florestais, a jiboinha-da-serra parece estar adaptada a ambientes rupestres de altitude, apresentando possível associação com córregos e áreas úmidas. Sua história natural permanece pouco conhecida, mas os registros disponíveis indicam hábitos discretos, predominantemente noturnos, com utilização tanto do solo rochoso quanto da vegetação arbustiva e de ambientes florestais adjacentes. Como outras espécies do gênero, provavelmente é vivípara e alimenta-se principalmente de pequenos vertebrados, especialmente anfíbios e lagartos. Embora atualmente seja conhecida em apenas cinco áreas e considerada rara, a jiboinha-da-serra está classificada como quase ameaçada (NT) em âmbito nacional e como deficiente de dados (DD) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). As principais ameaças identificadas decorrem da expansão da atividade minerária e dos incêndios recorrentes que afetam os campos rupestres do Quadrilátero Ferrífero e da Serra do Espinhaço. Em razão de sua distribuição restrita e da necessidade de ampliar o conhecimento sobre sua ecologia e dinâmica populacional, a espécie foi incluída em 2024 no Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada de Extinção do Sudeste (PAN Herpetofauna do Sudeste), figurando entre os táxons prioritários para ações de pesquisa, monitoramento e conservação.

Taxonomia e sistemática Tropidophis preciosus é uma serpente da família dos tropidofiídeos e do gênero Tropidophis, um grupo de pequenas serpentes vivíparas popularmente conhecidas como jiboias-anãs. O gênero compreende cerca de trinta espécies distribuídas predominantemente nas Índias Ocidentais, onde se concentra a maior parte de sua diversidade, especialmente em Cuba. Apenas poucas espécies ocorrem na porção continental da América do Sul, formando um conjunto relativamente isolado em relação à radiação caribenha. As espécies do gênero caracterizam-se pelo pequeno porte, corpo robusto, hábitos principalmente noturnos e dieta composta sobretudo por anfíbios e lagartos. Algumas apresentam ainda características fisiológicas incomuns entre serpentes, como a capacidade de alterar parcialmente a coloração corporal e a emissão reflexa de sangue como mecanismo defensivo. A sistemática de Tropidophis permaneceu durante décadas centrada quase exclusivamente nas espécies caribenhas. As primeiras revisões abrangentes do grupo foram realizadas por Stull (1928), Bailey (1937) e Schwartz & Marsh (1960), que investigaram principalmente os táxons das Antilhas. Esses estudos demonstraram que muitos caracteres tradicionalmente empregados para distinguir espécies, como o grau de quilhamento das escamas dorsais, podem variar consideravelmente dentro de uma mesma população. Como consequência, tornou-se evidente que diagnósticos confiáveis deveriam basear-se na combinação de múltiplos caracteres morfológicos, e não em traços isolados. Outro aspecto que dificultou historicamente a taxonomia do gênero foi a raridade da maioria das espécies, frequentemente conhecidas por poucos exemplares, o que limitou a avaliação da variação geográfica e individual. Em contraste com os táxons caribenhos, as espécies continentais permaneceram pouco estudadas durante grande parte do século XX. Essa situação decorreu tanto da reduzida diversidade conhecida na América do Sul quanto da escassez de exemplares depositados em coleções zoológicas. Até o início da década de 2010 eram reconhecidas apenas três espécies continentais: Tropidophis battersbyi, conhecido apenas pelo espécime-tipo procedente do Equador; a jiboia-anã-brasileira (T. paucisquamis), distribuído pela Mata Atlântica do sudeste brasileiro; e T. taczanowskyi, registrado no Equador e no Peru. As distinções entre essas formas baseavam-se principalmente em contagens de escamas ventrais, número de fileiras dorsais e padrões gerais de coloração, embora vários desses caracteres apresentassem variação insuficientemente documentada. Durante o exame de material proveniente da Mata Atlântica brasileira, Curcio, Nunes, Argôlo, Skuk e Rodrigues verificaram que exemplares coletados em Minas Gerais e na Bahia não podiam ser adequadamente atribuídos à jiboia-anã-brasileira. A comparação detalhada com uma amostragem ampliada das espécies continentais revelou a existência de duas linhagens distintas e previamente não reconhecidas, posteriormente descritas como T. grapiuna e a jiboinha-da-serra (Tropidophis preciosus). O estudo revisou simultaneamente a taxonomia de todas as espécies sul-americanas conhecidas, redefinindo seus diagnósticos com base em séries mais representativas e ampliando o conhecimento sobre sua variação geográfica e morfológica. A jiboinha-da-serra foi descrita em 2012 por Gabriel Skuk, Antônio Jorge Suzart Argôlo, Pedro M.S. Nunes, Felipe F. Curcio e Miguel Trefaut Rodrigues a partir de exemplares provenientes da porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. A espécie distingue-se das demais formas continentais por uma combinação exclusiva de caracteres, incluindo o elevado número de escamas ventrais, a presença de 23 fileiras dorsais na região mediana do corpo, o aumento das escamas vertebrais na porção posterior do tronco, a ausência de escamas interparietais e um padrão de coloração formado por numerosas manchas pequenas distribuídas em oito séries longitudinais. Entre as espécies sul-americanas, apresenta as maiores contagens ventrais conhecidas, alcançando mais de duzentas escamas nessa região do corpo. As relações filogenéticas entre as espécies continentais e caribenhas de Tropidophis permanecem insuficientemente compreendidas. Estudos morfológicos demonstraram que várias espécies sul-americanas, incluindo a jiboinha-da-serra, possuem hemipênis quadrifurcados, uma conformação extremamente incomum entre serpentes. A distribuição desse caráter em espécies continentais e insulares sugere uma história evolutiva complexa para o gênero, cuja monofilia e estrutura interna ainda dependem de análises filogenéticas mais abrangentes. Até o momento, a jiboinha-da-serra é considerada um representante endêmico da radiação sul-americana do gênero. O holótipo da jiboinha-da-serra é uma fêmea adulta registrada sob o número MZUSP 17957 (Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo), coletada em setembro de 1989 em Conselheiro Mata, pequena vila localizada cerca de 40 quilômetros a leste do município de Diamantina, em Minas Gerais. O parátipo é uma fêmea adulta registrada como LZVUFOP 913 S (Coleção Herpetológica do Laboratório de Zoologia dos Vertebrados da Universidade Federal de Ouro Preto), coletada no Parque Estadual do Itacolomi, entre os municípios de Mariana e Ouro Preto, também em Minas Gerais. O nome genérico Tropidophis deriva dos termos gregos tropís (τροπίς; "quilha") e ophis (ὄφις; "serpente"), aludindo às escamas quilhadas da espécie-tipo do gênero. O epíteto específico preciosus é um adjetivo latino no nominativo singular e faz referência à riqueza gemológica da região da localidade-tipo, especialmente associada aos municípios de Diamantina, Ouro Preto e Mariana.

Diagnóstico A jiboinha-da-serra distingue-se das demais espécies continentais do gênero por uma combinação de caracteres morfológicos, merísticos e de coloração. Trata-se de uma serpente de pequeno porte, com menos de 50 centímetros de comprimento total, corpo robusto e lateralmente comprimido, cauda curta e preênsil e cabeça triangular nitidamente distinta do pescoço. Possui ausência de escama loreal, uma única pré-ocular grande, escamas dorsais lisas ou fracamente quilhadas, 21–23 fileiras dorsais anteriores, 23 (raramente 25) fileiras dorsais medianas e 17 posteriores, além de escamas da fileira vertebral distintamente mais largas em parte do tronco. A espécie apresenta ainda 177–203 ventrais e 27–34 subcaudais indivisas, com dimorfismo sexual evidente nessas contagens. A dentição maxilar inclui 19 dentes, progressivamente menores em direção à porção posterior da maxila. Embora os exemplares originalmente descritos não apresentassem escamas interparietais e possuíssem as parietais em amplo contato medial, espécimes posteriormente examinados revelaram variação nesse caráter, podendo ocorrer uma pequena fileira de escamas interparietais separando as parietais. O padrão de coloração caracteriza-se pela presença de múltiplas séries longitudinais de manchas escuras sobre fundo marrom, castanho ou creme, incluindo quatro fileiras principais de manchas dorsais e duas séries de manchas ventrolaterais maiores. As regiões temporal e occipital exibem conspícuas manchas claras, formando uma faixa dorsolateral que se estende em direção aos olhos. A espécie também apresenta elevado número de manchas ao longo do tronco, superior a cinquenta e podendo atingir 66 no parátipo. Entre as espécies brasileiras do gênero, distingue-se especialmente de T. grapiuna e a jiboia-anã-brasileira pelo maior número de ventrais e pelo conjunto de caracteres de coloração e escutelação.

Morfologia O holótipo é uma fêmea adulta com 404 milímetros de comprimento rostro-cloacal e cauda quebrada medindo 25 milímetros. O corpo é longo e relativamente grácil, com o terço anterior profundamente deprimido. A cabeça é cerca de duas vezes mais longa que larga, distinta do pescoço, com olhos de tamanho moderado, pupila subelíptica e íris cinza-escura em preservação. O rostro é subtriangular, quase duas vezes mais largo que alto em vista frontal e pouco visível dorsalmente. As internasais são pareadas, mais largas que longas e aproximadamente trapezoidais; há dois pares de pré-frontais, sendo o par anterior distintamente maior. A frontal é grande, pentagonal e mais longa que larga; as supraoculares são grandes, aproximadamente hexagonais e alongadas. As interparietais estão ausentes, e as parietais são grandes, pentagonais, nitidamente mais longas que largas e em contato completo ao longo da linha mediana da cabeça. A nasal é inteira, quase três vezes mais longa que alta, com uma pequena incisura em sua margem inferior anterior direcionada para a narina. A narina é arredondada e posicionada no terço anterior da nasal. Loreal ausente; ocular 1/3 no holótipo; temporais 2+3; supralabiais 10/9, com a quinta à sétima do lado direito e a quarta à sexta do lado esquerdo em contato com a órbita; infralabiais 12/11; dois pares de escudos geniais impedem o contato entre as séries direita e esquerda de infralabiais. Há sulco mental profundo entre os escudos geniais. As escamas dorsais do holótipo estão dispostas em 23/23/17 fileiras, reduzidas para 20 fileiras ao nível da ventral 123, 19 ao nível da ventral 133 e 17 ao nível da ventral 173, permanecendo assim até a cloaca. A maior parte das dorsais é lisa, sublosangular e tão longa quanto larga; apenas as fileiras quinta a décima primeira da porção mais anterior do corpo são fracamente quilhadas. Na região mediana do corpo, as duas primeiras fileiras dorsais são ligeiramente maiores que as demais. A fileira vertebral torna-se distintamente alargada e hexagonal a partir da ventral 120 até a região cloacal. O holótipo possui 203 ventrais, placa anal inteira, 18 subcaudais indivisas na cauda incompleta e não apresenta esporões externos detectáveis. O parátipo é ligeiramente maior que o holótipo, com 481 milímetros de comprimento total, 440 milímetros de comprimento rostro-cloacal e 41 milímetros de cauda intacta. Difere do holótipo por apresentar contagens simétricas de supralabiais e infralabiais, respectivamente 10/10 e 12/12, ocular 1/2, ausência de contato preocular-nasal, escamas dorsais em 21/23/17 fileiras, 196 ventrais e 27 subcaudais indivisas. Posteriormente à descrição original, foram identificados os primeiros machos conhecidos da espécie, provenientes da Serra da Descoberta, em Caeté. Esses exemplares apresentam 177–178 ventrais e 32 subcaudais indivisas, enquanto as fêmeas conhecidas possuem 196–203 ventrais e 27 subcaudais. Os machos também apresentam cauda proporcionalmente mais longa, representando entre 12% e 13% do comprimento rostro-cloacal, enquanto na fêmea mensurada essa proporção é de aproximadamente 9%. Os espécimes masculinos medem 355–358 milímetros de comprimento rostro-cloacal, possuem cabeça com 12,36–12,48 milímetros de comprimento e exibem dorsais fracamente quilhadas em grande parte do corpo, exceto nas fileiras mais ventrais. Observou-se ainda variação intraespecífica em caracteres anteriormente considerados diagnósticos, incluindo a presença de pequenas escamas interparietais separando as parietais e a ocorrência de até 25 fileiras dorsais medianas em alguns indivíduos.

Coloração A coloração dorsal da jiboinha-da-serra é uniformemente marrom-acinzentada escura. A superfície dorsal da cauda é ligeiramente mais clara que o tronco. O corpo é manchado, com manchas marrom-escuras a negras distribuídas em oito séries longitudinais: seis no dorso e duas no ventre. No holótipo, há mais de cinquenta manchas entre o pescoço e a cloaca, embora o número exato não possa ser determinado devido a danos na pele dorsal; no parátipo, foram registradas até 66 manchas. As manchas dorsais medem um ou dois comprimentos de escama dorsal e cerca de duas escamas de altura. As manchas ventrais são grandes, geralmente cobrindo até metade da largura das ventrais e dois a três escudos de comprimento. No holótipo foram registradas 38 manchas na série ventral direita e 39 na esquerda; no parátipo, 40 e 42, respectivamente. As manchas das séries ventrais são em geral alternadas, mas vários pares tornam-se confluentes na linha média ventral. A superfície dorsal da cauda apresenta duas a quatro séries de manchas, com as séries laterais estendendo-se até as subcaudais. A cabeça é marrom-escura dorsalmente, com pequenas manchas claras. Em cada lado da cabeça há uma grande mancha occipital castanho-clara, arredondada posteriormente e prolongada anteriormente pela região temporal em direção ao olho. As supralabiais são predominantemente marrons, irregularmente manchadas de castanho-claro. As primeiras infralabiais são em geral marrons na metade superior e creme na metade inferior, enquanto as infralabiais posteriores são mais escuras. Uma faixa pós-ocular marrom-escura bem definida cobre as pós-oculares, temporais inferiores, a maior parte da penúltima supralabial e toda a última supralabial, sendo delimitada superiormente pelas manchas occipitais e inferiormente por pequenas manchas claras nas supralabiais posteriores. O queixo tem fundo creme, com marcações marrons conspícuas na região dos escudos geniais e abaixo da articulação quadrado-mandibular. Em vida, as manchas occipitais apresentam tonalidade ligeiramente mais escura, tendendo ao dourado-acastanhado. Também ocorrem manchas irregulares marrom-avermelhadas alternadas com as manchas escuras da região paravertebral. Os machos conhecidos apresentam padrão geral semelhante ao descrito para as fêmeas, mas exibem fundo dorsal marmoreado composto por manchas marrom-claras, marrom-avermelhadas e creme, além de uma discreta faixa vertebral clara em zigue-zague. Em cada lado do tronco ocorrem três fileiras de manchas negras arredondadas e difusas. O ventre possui coloração de fundo creme a amarelada, com grandes manchas negras irregulares nas laterais, algumas das quais podem unir-se medialmente formando semianéis. A cabeça apresenta grandes manchas claras nas regiões temporal e occipital, formando uma faixa dorsolateral irregular que se estende até os olhos. Em vida, a superfície dorsal apresenta brilho intenso e iridescente. O ventre é amarelo, a íris possui marmoreado em tons de palha, laranja-claro e marrom, e as manchas claras da cabeça variam entre palha e branco-amarelado. A cauda tende a apresentar coloração ligeiramente mais clara que o restante do corpo.

Distribuição e habitat A jiboinha-da-serra é endêmica do Brasil e conhecida da porção meridional da Serra do Espinhaço e do Quadrilátero Ferrífero, no estado de Minas Gerais. Sua distribuição conhecida inclui a região de Conselheiro Mata, distrito de Diamantina que corresponde à localidade-tipo, o Parque Estadual do Itacolomi, em Ouro Preto, o entorno da Serra do Caraça e a Mina Germano, em Mariana, o Parque Estadual do Pico do Itambé, em Santo Antônio do Itambé, e a Serra da Piedade e a adjacente Serra da Descoberta, no município de Caeté. A extensão de ocorrência da espécie foi estimada em 8 977 quilômetros quadrados, calculada por meio do mínimo polígono convexo formado a partir dos pontos de registro conhecidos. Sua distribuição atual abrange áreas dos biomas Cerrado e Mata Atlântica, nas sub-bacias do Doce e do Alto São Francisco. A espécie é conhecida exclusivamente de áreas montanhosas situadas acima de mil metros de altitude. Embora parte de sua ocorrência esteja inserida no domínio da Mata Atlântica, a jiboinha-da-serra foi registrada principalmente em áreas de campo rupestre, incluindo campos rupestres quartzíticos e ferruginosos, frequentemente em contato com floresta estacional semidecidual. Diferentemente das demais espécies do gênero, geralmente associadas a ambientes florestais, a jiboinha-da-serra parece estar estreitamente relacionada a ambientes rupestres de altitude e a ecótonos entre formações abertas e florestais. O holótipo foi coletado em área campestre situada a cerca de 100 metros de um fragmento bem preservado de floresta semidecidual. A localidade apresenta paisagem dominada por campo rupestre quartzítico e numerosos córregos acompanhados por vegetação campestre ou galerias florestais. O parátipo foi encontrado à noite enrodilhado em um pequeno arbusto ao lado de um córrego temporário, em uma encosta rochosa íngreme com afloramentos quartzíticos, fendas e pequenos poços d'água. Um exemplar adicional, sem material testemunho preservado, foi registrado inativo sob rochas durante o dia na região de Mariana. Outros registros provêm de áreas com nascentes e córregos permanentes, tanto em ambientes campestres quanto florestais, sugerindo uma possível associação da espécie com cursos d'água. Apesar desses dados, ainda faltam informações para inferir de forma adequada seus requisitos ecológicos e de habitat.

Ecologia A história natural da jiboinha-da-serra é pouco conhecida. Diferentemente das demais espécies do gênero, geralmente associadas a ambientes florestais, a espécie parece estar relacionada aos campos rupestres da porção meridional da Serra do Espinhaço e do Quadrilátero Ferrífero, frequentemente em áreas de transição com floresta estacional semidecidual e possivelmente associada a corpos d'água, embora ainda existam poucos dados sobre seus requisitos ecológicos. O holótipo foi encontrado durante o dia, inativo sob uma rocha, e exibiu comportamento defensivo de enrolamento em bola quando manipulado. O parátipo foi encontrado à noite, enrolado em um arbusto baixo próximo a um riacho temporário. Um terceiro registro, sem material testemunho depositado em coleção científica, corresponde a um indivíduo encontrado inativo sob rochas durante o dia. Adicionalmente, um macho proveniente da Serra da Descoberta foi encontrado à noite, enrodilhado sobre um arbusto no sub-bosque de uma floresta estacional semidecidual, próximo a um córrego. Esses registros sugerem hábitos discretos, com utilização tanto do solo rochoso quanto da vegetação arbustiva baixa e de ambientes florestais adjacentes, além de indicarem uma possível associação da espécie a cursos d'água. Como outras espécies do gênero, a jiboinha-da-serra provavelmente é vivípara e possui hábitos predominantemente noturnos. Espécies de Tropidophis alimentam-se principalmente de lagartos e anfíbios, e algumas apresentam mecanismos defensivos peculiares, como enrolamento do corpo, alteração de coloração e auto-hemorragia defensiva, embora esses comportamentos não tenham sido todos documentados especificamente para a jiboinha-da-serra.

Biogeografia A jiboinha-da-serra representa uma linhagem continental isolada da porção meridional da Serra do Espinhaço. Essa cadeia montanhosa está separada das serras costeiras do sudeste brasileiro pelo vale do rio Doce, o que provavelmente contribui para o isolamento da espécie em relação às populações congêneres da Mata Atlântica costeira. A porção meridional do Espinhaço, onde a espécie ocorre, situa-se no limite ocidental da Mata Atlântica e é separada do planalto setentrional da cadeia por uma depressão alongada associada ao vale do rio Jequitinhonha. A região da Serra do Espinhaço é reconhecida por abrigar elevado grau de endemismo, especialmente em ambientes montanos e campos rupestres. A ocorrência da jiboinha-da-serra nesse contexto reforça a importância biogeográfica do Espinhaço meridional, que abriga linhagens isoladas de répteis e outros vertebrados. Entre as espécies brasileiras de Tropidophis, a jiboinha-da-serra diferencia-se ecologicamente por estar associada a paisagens abertas de altitude, enquanto a jiboia-anã-brasileira e T. grapiuna são mais claramente vinculadas a formações florestais. A diferenciação entre as espécies brasileiras de Tropidophis pode estar relacionada a eventos históricos de isolamento em ambientes tropicais relativamente frios e de altitude moderada. A jiboia-anã-brasileira parece restrita à margem sul do rio Doce e associada às cadeias da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira, enquanto T. grapiuna ocorre ao norte desse rio, em uma região reconhecida como refúgio de biodiversidade da Mata Atlântica. A jiboinha-da-serra, por sua vez, ocorre em uma cadeia montanhosa interiorana, provavelmente isolada das populações costeiras por barreiras topográficas e ecológicas.

Conservação A jiboinha-da-serra é pouco conhecida fora do meio científico e não existe nome popular regional documentado para a espécie. Não há registros de conflitos com seres humanos, e trata-se de uma serpente não peçonhenta e inofensiva. Em avaliação conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a jiboinha-da-serra foi classificada como quase ameaçada (NT) em 2019, categoria posteriormente publicada pelo Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE) em 2023. Em 2024, a espécie passou a integrar o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada de Extinção do Sudeste (PAN Herpetofauna do Sudeste), figurando entre as espécies classificadas como quase ameaçadas consideradas prioritárias para ações de conservação, monitoramento e ampliação do conhecimento científico. Em escala global, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classificou a espécie como deficiente de dados (DD), em razão da escassez de informações disponíveis sobre sua distribuição, tamanho populacional, tendências demográficas, exigências ecológicas e uso do habitat. Quando avaliada, a espécie era conhecida por poucos registros provenientes da porção meridional da Serra do Espinhaço, sendo considerado possível que sua distribuição aparente refletisse, ao menos em parte, limitações de amostragem. Com base nessa avaliação, a espécie consta como deficiente de dados (DD) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Consta no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES). A espécie ainda não foi avaliada oficialmente para a lista de fauna ameaçada do estado de Minas Gerais. Estudos posteriores ampliaram o número de localidades conhecidas, incluindo registros em Conselheiro Mata, no município de Diamantina, no Parque Estadual do Itacolomi, em Ouro Preto, na região da Mina Germano e do entorno da Serra do Caraça, em Mariana, no Parque Estadual do Pico do Itambé, em Santo Antônio do Itambé, e na Serra da Piedade e Serra da Descoberta, em Caeté. Apesar disso, a espécie permanece considerada rara e atualmente é conhecida em apenas cinco áreas. Diversos levantamentos realizados ao longo da última década no Quadrilátero Ferrífero, incluindo expedições especificamente direcionadas à sua procura, não resultaram em novos registros. Não existem estimativas populacionais disponíveis e sua tendência populacional permanece desconhecida. Apesar das pressões antrópicas identificadas em parte de sua distribuição, não há evidências de fragmentação severa da população, e o número de localizações da espécie ainda não pôde ser determinado com segurança. Dessa forma, embora apresente distribuição restrita e esteja sujeita a ameaças que provocam declínio da qualidade do habitat, os dados atualmente disponíveis não sustentam sua inclusão em uma categoria formal de ameaça, justificando sua classificação como quase ameaçada. A inclusão da espécie entre os alvos do PAN Herpetofauna do Sudeste reflete o reconhecimento institucional de sua relevância para a conservação, apesar de sua classificação atual fora das categorias formais de ameaça. A principal ameaça potencial à espécie está associada à atividade minerária no Quadrilátero Ferrífero, uma das mais importantes províncias minerais do Brasil. A extração de minério de ferro e de outros recursos minerais demanda infraestrutura de grande porte e provoca alterações ambientais significativas, incluindo desmatamento, erosão, supressão do solo, contaminação hídrica e modificações físico-químicas do ambiente. Embora parte da distribuição conhecida esteja inserida em unidades de conservação, as áreas circundantes sofrem intensa pressão antrópica. Destaca-se que um dos registros conhecidos da espécie provém da Mina Germano, em Mariana, localidade onde parte expressiva do habitat natural original, especialmente os campos rupestres, já foi suprimida pela atividade minerária. Outra ameaça relevante corresponde aos incêndios recorrentes registrados nos campos rupestres, frequentemente associados ao uso inadequado do fogo em atividades agropecuárias. Esses eventos contribuem para o declínio da qualidade do habitat disponível para a espécie. A UICN também apontou que, caso sua associação a ambientes tropicais relativamente frios de altitude seja confirmada, as mudanças climáticas poderão representar uma ameaça potencial em longo prazo, especialmente em razão da redução ou deslocamento de habitats adequados. Não existe utilização conhecida da espécie nem registros de comércio, embora tenha sido sugerido que exemplares possam eventualmente despertar interesse de colecionadores especializados em serpentes raras.

Áreas protegidas A jiboinha-da-serra possui registros confirmados em algumas unidades de conservação de Minas Gerais:

Parques Estaduais (PE) Parque Estadual do Itacolomi Parque Estadual do Pico do Itambé Áreas de Proteção Ambiental (APA) Área de Proteção Ambiental Águas Vertentes Área de Proteção Ambiental Barão e Capivara

Referências

Ligações externas Documentos sobre Tropidophis preciosus na Biodiversity Heritage Library Observações de Tropidophis preciosus no iNaturalist