Política / Eleições 2026

Caso Ana Clara, disputa por ilha, 'nove dedos': o debate da TV Globo entre Flávio Bolsonaro e Lula em oito pontos
Caso Ana Clara, disputa por ilha, 'nove dedos': o debate da TV Globo entre Flávio Bolsonaro e Lula em oito pontos · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Adversários no segundo turno travaram embates sobre o legado dos dois últimos mandatos presidenciais no último encontro da campanha

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Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no debate da TV Globo — Foto: Alexandre Cassiano/Agência O GLOBO

No último debate da eleição de 2026, na noite desta sexta-feira, na TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) travaram embates sobre o legado dos dois últimos mandatos presidenciais, fizeram cobranças um ao outro sobre propostas de eventuais gestões e trocaram ataques envolvendo o combate ao crime organizado, tema que aparece em pesquisas como uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro.

Ataques reduzidos

Após o debate do último domingo, na Band, ter repercutido de forma negativa entre o eleitorado, devido à sucessão de ofensas e à falta de respostas aos questionamentos, os dois candidatos à Presidência ajustaram suas estratégias no início do encontro. Flávio fez acenos a governadores eleitos em diferentes regiões e elogiou programas da gestão do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), evitando desta vez retomar a ideia de reverter sua condenação por tentativa de golpe de Estado, que foi uma das tônicas do último debate. Lula, por sua vez, procurou resgatar episódios negativos da gestão de Bolsonaro em temas como a pandemia da Covid-19 e o combate ao desmatamento, contrapondo esta memória a aspectos de seu próprio governo nessas áreas.

Caso Ana Clara

Lula e Flávio reduziram o volume de ataques pessoais em comparação ao encontro anterior, na Band, mas tiveram um embate tenso no terceiro bloco do encontro. Ao ser questionado pelo candidato do PL sobre a retomada de territórios dominados por facções e ser acusado de defender a “saidinha de presos”, Lula citou a presença no estúdio de Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara, de 5 anos, morta em 2021 em Niterói (RJ). O suspeito do crime é o policial militar Bruno Dias Delaroli, cuja defesa foi assumida por Flávio, como advogado, quando o caso subiu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A mãe da menina foi convidada pela comitiva de Lula, em um movimento para desestabilizar o adversário, que também foi adotado pela equipe de Flávio (leia mais na página 6).

— Por que é que um senador da República evita que um policial assassino fosse julgado? O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos? — disse Lula.

Flávio, que vinha mostrando segurança em outros momentos do debate, hesitou na resposta e chegou a cometer uma gafe, referindo-se à mãe da menina como “senhora Ana Clara”, nome da filha.

— Foi uma tragédia o que aconteceu. (...) Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada. A senhora sabe que tem o tráfico de drogas ali. Eu quero ajudar a senhora a saber quem foi o autor desse disparo. Tenho confiança que não foi esse policial, que sequer foi julgado — argumentou.

Disputa por ilha

Lula também aproveitou o último bloco do debate, com tema livre de perguntas entre os candidatos, para pressionar Flávio sobre seu envolvimento em um imbróglio sobre a propriedade de uma ilha em Angra dos Reis (RJ), alvo de inquérito da Polícia Federal (leia mais na página 12), e voltou a pressionar Flávio por uma quebra de sigilo bancário. Flávio, por sua vez, reagiu citando condenações de Lula por corrupção na Lava-Jato, que foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e a apuração envolvendo o filho do presidente, Fábio Luís, o Lulinha, investigado por tráfico de influência — mencionou a lobista Roberta Luchsinger, peça-chave no caso. O senador também tentou associar o petista ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Lula, por sua vez, buscou vincular Flávio ao dono do Master e a outras suspeitas de fraude.

Vídeo de Bolsonaro

As regras do início do debate, que determinavam perguntas sobre regiões brasileiras definidas por sorteio e limitavam cada candidato a se manifestar apenas duas vezes por tema, acabaram reduzindo em um primeiro momento a virulência do encontro. O primeiro momento mais acirrado ocorreu quando Lula aproveitou uma pergunta sobre a região Norte para criticar a atuação do governo Bolsonaro na saúde e no meio ambiente. O atual presidente lembrou ainda uma declaração do então presidente na qual ele imitava a situação de um paciente de Covid com falta de ar.

— Ele só ouviu falar do Amazonas quando o pai dele apareceu rindo e imitando uma pessoa asfixiada por falta de oxigênio.

Flávio rebateu a acusação de Lula orientando os espectadores a assistirem ao vídeo completo da declaração de Bolsonaro em suas redes sociais:

— Se você pegar dez segundos antes e dez segundos depois, é exatamente o contrário: o presidente Bolsonaro criticava quem dizia que precisava sentir falta de ar para ir ao hospital — alegou Flávio.

Governadores

O presidenciável do PL procurou citar nominalmente os governadores eleitos do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL); do Paraná, Sergio Moro (PL); de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD); e do Pará, Doutor Daniel (Podemos), prometendo trabalhar em conjunto com eles, em um aceno a seu eleitorado. Nem todos apoiaram Flávio no primeiro turno.

Flávio também procurou associar Lula à expansão de facções criminosas na região Nordeste e à perda de poder de compra da população, dois temas recorrentes na campanha do PL.

— Esse governo gasta muito mais do que arrecada e aí precisa aumentar os impostos, tirando do seu bolso. Não adianta se você dá com uma mão e tira com os nove dedos — disse.

'Nove dedos'

O atual presidente, por sua vez, buscou acusar o adversário de falta de respeito com a população mais pobre e pediu direito de resposta devido à menção do candidato do PL à perda de seu dedo.

— Perdi o dedo trabalhando à noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de “nove dedos”. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional — disse Lula.

De acordo com um grupo focal de 300 eleitores monitorados pela Quaest, Lula se saiu bem na forma como reagiu à ofensa, mas Flávio se recuperou depois ao pedir desculpas ao presidente.

Flávio também obteve direitos de resposta, nesse e em outros momentos, após ser chamado de “miliciano”.

'Tesouraço'

O atual presidente criticou ainda, em mais de um momento, propostas de “tesouraço” do presidente argentino Javier Milei, aliado de Flávio, que rebateu criticando o legado econômico de governos de esquerda, como o de Lula.

Em mais de um momento do debate, Lula hesitou para utilizar o tempo de resposta disponível, e foi lembrado pelo mediador, César Tralli, de que perderia os minutos restantes caso encerrasse sua resposta. Flávio chegou a se irritar com essa hesitação do rival e tentou interromper o presidente em alguns momentos, o que levou a mediação a repreendê-lo.

Visões de país

Os dois candidatos procuraram aproveitar o último embate direto desta eleição para confrontar visões de país. Flávio buscou apresentar um eventual governo com foco em “conectividade”, com propostas de expansão da cobertura de internet até em aldeias indígenas, abraçando um discurso de “renovação” em contraponto a Lula”.

Lula, por sua vez, procurou ressaltar o próprio legado de políticas sociais, e frisou que sua primeira passagem na Presidência retirou o país do mapa da fome. Lula também procurou associar o adversário a um comportamento de “elite” econômica, tentando apresentar a si mesmo em contraponto a isto. (Bernardo Mello, Bruno Alfano, Caio Sartori, João Vitor Costa e Livia Mendes)

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